Degustadores Sem Fronteiras | O DOURO INESQUECÍVEL
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O DOURO INESQUECÍVEL

16 ago 2016, Posted by degustadoresfronte in Notícias e Artigos

O caro amigo – e companheiro de páginas desta revista – Carlos Cabral que me perdoe, mas vou invadir-lhe a seara. Guardadas as devidas proporções, me sinto assim como o mineiro Ari Barroso pedindo licença para o baiano Dorival Caymmi para poder cantar um pouco dos encantos da Bahia.
A verdade é que tudo o que havia ouvido a respeito dos encantos dessa região – tida como uma das mais belas do mundo – se confirmou: a hospitalidade sem igual dos irmãos portugueses, a tradição das caves centenárias em Vila Nova de Gaia — onde milhões de litros do delicioso vinho do Porto adormecem calmamente para poderem despertar, muito mais tarde, em nossas taças e nos aquecer os corações –, a beleza indescritível das linhas curvas traçadas pela natureza no rio e nas montanhas. Nada mais belo do que a visão, num fim de tarde, dos vinhedos, plantados pelo homem no solo rude e pedregoso das encostas, se debruçando sobre o Douro.
Só agora, em outubro do ano passado, tive a oportunidade de conhecer essa região, numa viagem que organizei pelo grupo Degustadores Sem Fronteiras. Nosso pequeno grupo de amantes do vinho tão logo chegou ao aeroporto de Lisboa, numa manhã úmida e friorenta, já rumou em direção ao norte, de microônibus, com destino à cidade do Porto. Óbidos, Batalha, Leiria (onde almoçamos no fantástico “Tromba Rija”) e finalmente Coimbra, onde paramos por dois dias no hotel ”Quinta das Lágrimas”. Uma viagem bastante confortável pelas modernas estradas construídas no país após sua integração à nova Europa unificada.
Segunda feira, já no Porto, iniciamos nossa peregrinação às caves de Vila Nova de Gaia. Chama a atenção o profissionalismo no atendimento ao turista, quer seja ele um iniciante curioso das coisas do vinho, quer seja um grupo organizado de enófilos mais experientes. Graham’s, Ferreira, Ramos Pinto, Taylor’s, em cada casa a fidalguia portuguesa na arte de bem receber, mesclando o calor humano ao prazer da degustação de excelentes vinhos.
Uma visita ao IVP – Instituto do Vinho do Porto, é obrigatória, e sem dúvida a fizemos. A recepção foi, como sempre, a melhor possível. Após uma explanação do diretor da casa no austero auditório, tivemos a projeção de um audiovisual que nos falava da cultura do vinho na região e da história dessa importante instituição que regulamenta todos os procedimentos relativos ao vinho do Porto.
Com o acompanhamento do caro amigo, enólogo Carlos Soares, fizemos logo após f uma visita ao belo edifício e às modernas salas de pesquisa, onde enólogos munidos de instrumentos de última geração zelam pela qualidade do vinho do Porto.
Muito já se falou sobre essa “invenção inglesa”, o vinho do Porto, feito a partir de uvas colhidas dentro da primeira região demarcada do mundo, criada graças ao pioneirismo e grande visão histórica do Marquês de Pombal, em 1757, quando delimitou a vasta área que se inicia 96 km a leste da cidade e se estende por mais 107 km, de Barqueiros até Mazouco, na fronteira espanhola, com sólidos blocos de granito. Esse vinho fortificado teve sua consagração internacional e tem mantido, durante todos esses anos, seu prestígio inconteste.
Mas creio que valha a pena gastarmos alguma tinta para falarmos um pouco dos deliciosos vinhos tintos de mesa da região. Já os conhecíamos, sem dúvida, daqui do Brasil, mas a viagem fez com que nos aproximássemos mais deles em nossas visitas aos restaurantes e vinícolas. Barca Velha (o precursor de todos eles, feito pela Casa Ferreira), Quinta da Gaivosa, Quinta do Meão, Redoma, e tantos outros vinhos de altíssima qualidade que vem encantando o mundo do vinho e arrebatando elogios da crítica internacional.
Elaborados com as uvas típicas da região (as mesmas do Vinho fortificado), têm como sua grande estrela a Touriga Nacional, seguida da Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinto Cão e Touriga Francesa. Uma jovem geração de enólogos investiu no futuro desses vinhos de mesa, julgando que a região não deva se restringir somente ao Porto licoroso, e colhem agora seus frutos com o sucesso comercial e de crítica de seus suculentos vinhos.
Como nos esquecer da recepção que tivemos da família Roquette, proprietários da vinícola Quinta do Crasto, no Cima Corgo, uma das mais belas da região? As instalações são modelares, o lugar paradisíaco, os vinhos, excepcionais, e o calor humano, inigualável. No almoço que nos foi oferecido por Jorge Roquette, seu filho Tomás e a esposa Astrid pudemos degustar desde o Quinta do Crasto 2000, passando pelo Quinta do Crasto Reserva 2000 (ambos encontráveis no Brasil), até chegarmos ao majestoso Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2000, merecidamente incensado pela crítica mundial (a revista Wine Spectator brindou-lhe com 94 pontos!). O almoço terminou com chave de ouro, com a degustação de um Porto Colheita 1970.

AGUINALDO ZÁCKIA ALBERT

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