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CAHORS, A OUTRA TERRA DA MALBEC

16 ago 2016, Posted by degustadoresfronte in Notícias e Artigos

Originária de Bordeaux, a uva Malbec cruzou o Atlântico em 1852 e se instalou em Mendoza, Argentina, em 1852. Sua adaptação às novas condições de clima e de solo foi espetacular. Nessa zona de clima seco e com ampla utilização da irrigação artificial, ela se manteve à salvo da phyloxera, conseguindo ali apresentar a sua melhor expressão, constituindo-se hoje numa verdadeira bandeira do vinho argentino e um grande sucesso no mercado mundial.

Enquanto isso, na sua Bordeaux natal, com seu caráter mais duro e tânico, ela continua desempenhando seu papel secundário na chamado “corte bordalês”, composição de uvas permitidas na região para a elaboração dos vinhos dessa appellation, eclipsada pela Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot. Na verdade, sua participação nessa mescla vem declinando nos últimos tempos, exceção feita à appellation Côtes de Bourg.

Existe, no entanto, outra região francesa — que já teve um tempo de muita glória — em que ela reina soberana. Trata-se de Cahors, no Sudoeste francês.

O SUDOESTE DA FRANÇA
Abrangendo uma região que se estende de Bergerac aos Pirineus, cordilheira que separa o país da Espanha, essa porção de terra, que é conhecida também pelo nome de Gasconha, possui a maior diversidade de castas vitivinícolas de toda a França. Além da nossa Malbec — mais conhecida por Auxerrois e Côt Noir – vamos encontrar a Tannat, a Fer Servadou, a Negrette, a Duras, a Petit Manseng, a Gros Manseng, a Mauzac e várias outras, isso se ficarmos apenas com as uvas tintas, que representam 80% da produção regional. Tais vinhedos se espalham pelas sub-regiões de Madiran (Tannat principalmente), Tursan, Bergerac, Côtes de Bergerac, Côtes du Marmandais, Monbazillac, Gaillac, Fronton a própria Cahors, e outras menos importantes. Por elas correm os rios Lot, Cahors, Bergerac, Gaillac, Fronton, Puzat e Marmandais, a maioria deles tributários do estuário do rio Gironda, e seus vinhedos acompanham o caminho desses rios.

Fazendo parte do sudoeste e bem próxima a Bordeaux, Cahors sofreu uma forte influência de seu poderoso vizinho em sua dramática história. O vinhedo foi criado pelos romanos, e durante a Idade Média seu prestígio teve expressivo crescimento. O casamento de Eleanor de Aquitânia com Henrique II, rei da Inglaterra, abriu as portas do grande mercado consumidor inglês, antes dominado pelos vinhos de Bordeaux. No entanto, os poderosos produtores e comerciantes bordaleses, sentindo-se ameaçados, se mobilizaram para pressionar Londres e conseguiram arrancar do rei da Inglaterra alguns privilégios exorbitantes, o que resultou num duro golpe para os produtores gascões. Além de sofrerem pesada taxação, os vinhos do sudoeste só podiam chegar a Londres depois de que toda a produção bordalesa estivesse vendida. Tal privilégio durou cinco séculos (foi interrompido apenas em três curtos períodos, e o vinho da região sentiu o golpe). Foi abolido apenas em 1776, por Turgot, quando se iniciou um novo ciclo dourado desses vinhos.

Apesar da Revolução Francesa e das Guerras do Império, já no século XIX, 75% do vinho de Cahors era exportado e um terço das terras agriculturáveis eram dedicadas à vinha, que cobria a impressionante área de 40 000 ha . A zona enfrentou bem a praga do oídio (de 1852 a 1860), e a superfície plantada subiu ainda mais, chegando 58 000 ha . Para se ter uma ideia da queda que viria mais tarde , a área do vinhedo de Cahors hoje é de apenas 4 200 ha .

Mas Cahors teve pior sorte ao enfrentar a phylloxera, no final do século XIX. Como se sabe, todos os vinhedos atacados pelo mundo tiveram de ser replantados, dessa vez com de forma enxertada. Os vinhedos de Malbec da região reagiram muito mal a essa nova situação, dando origem a vinhos medíocres , com qualidade muito abaixo da que tinham anteriormente. Apenas no final dos anos 1940, depois de muita pesquisa, chegou-se ao clone 587 da Malbec, que teve muito boa adaptação. Retoma então sua marcha ascendente até chegarmos a 1971, quando Cahors é declarada região AOC.

As normas dessa denominação determina que o vinho deve ser composto de pelo menos 70% de uva Malbec, sendo o restante composto pela tânica Tannat e a macia Merlot. A Cabernet Sauvignon e a Cabernet Franc não são permitidas. O vinho é bastante escuro e encorpado, com boa fruta e mais austero e seco do que o Malbec argentino.Dependendo da sub-região, pode ser mais leve e para consumo mais precoce, ou mais estruturado e passível de longa guarda.

Organizei recentemente uma degustação de Malbecs argentinos e cadurcianos e posso afirmar que os franceses não decepcionaram, confirmando o bom momento da região. Além disso, foi o vinho que melhor acompanhou o Cassoulet que foi servido depois. O escritor americano Ernest Hemingway, que morou por longo período na França, era um fã declarado dos potentes vinhos de Cahors, que tanto se afinavam com sua personalidade. Sem dúvida ficaria muito contente de poder saber dessas notícias. No entanto, em termos de mercado internacional, os vinhos de Mendoza estão muito à frente. Sua área plantada da variedade é de 21 000 ha , contra 4 200 de Cahors. A França toda tem 7 000 há. e o resto do mundo 5 000 ha. Favorecidos pelo critério adotado largamente no Novo Mundo de mencionar o tipo da uva em seus rótulos, além, é claro, da alta qualidade de seus vinhos, os argentinos vem dominando o mercado.

Os franceses despertaram para isso e, contrariando a tradição, começam a mencionar no rótulo, além da Appellation d´Origine Controllée, o tipo da casta. Os bons resultados começam a ser sentidos. Os produtores de Cahors adotaram também a inteligente política de se ligarem a produtores argentinos na divulgação de seus produtos. Organizaram em 2008 , em Cahors, as Premières Journées Internationales du Malbec. A segunda mostra aconteceu em 2009 na Argentina. O jornal francês Le Figaro acaba de noticiar que o próximo passo será um stand único para as duas regiões na próxima London Wine Trade Fair. Agora é aguardar os resultados.

AGUINALDO ZÁCKIA ALBERT

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