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A RIQUEZA CULTURAL DO ALENTEJO

16 ago 2016, Posted by degustadoresfronte in Notícias e Artigos

“Irei a Évora descobrir o branco/a ogiva o arco a rosácea a nave/a praça como pátio/o pátio como praça./ Nada destrói a intimidade/de sua humana geometria./Irei a Évora para reencontrar/ a perdida harmonia”

Manuel Alegre
Aqueles que já conhecem o norte de Portugal, com seu solo de pedra e suas serras, sentirão logo a diferença na paisagem à medida que se chega ao coração do Alentejo. Ali predominam as grandes planuras, os horizontes largos de uma terra extensa e escassamente povoada, banhada generosamente pelo sol. Ocupando uma terça parte do território português, abriga parcos 5% de sua população, que se dedica basicamente à produção de cortiça, do azeite de oliva e do vinho.

A formação étnica e cultural é também diversa. Ocupada sucessivamente por fenícios, celtas, romanos, mouros, visigodos, o Alentejo é um verdadeiro caldeirão onde se mesclaram estas várias culturas, cada uma delas deixando sua marca indelével, principalmente a cultura árabe, que ocupou a região por oito séculos.

Seus vinhos ganham cada vez mais prestígio no mercado brasileiro e mundial. Apesar da política de desestímulo à sua produção – que se iniciou nos anos 1930 durante o governo Salazar, com sua “Campanha do Trigo”, que determinava que a região deveria ser o celeiro de Portugal, produzindo basicamente cereais – o cenário mudou drasticamente a partir dos anos 60 e 70 do século passado. Hoje o Alentejo produz cerca de 15% do vinho de Portugal, além de ser o maior fornecedor de vinho para o seu mercado interno.

Em recente visita que fizemos ao chamado “Novo Mundo do vinho de Portugal”, pudemos conferir a consistência da qualidade de sua produção. Vinhedos bem cuidados, tecnologia moderna, profissionais de alta qualificação, tudo leva a crer que o movimento iniciado há alguns anos continua de vento em popa no início no novo século, o que nos permite afirmar que os vinhos alentejanos vieram mesmo para ficar.

Mas nem só de vinho vive o Alentejo. Quero falar um pouco aqui sobre a imensa riqueza cultural e gastronômica dessa terra meridional, além de seu enorme potencial turístico. A estadia em Évora, capital da província e considerada pela ONU Patrimônio Histórico da Humanidade, é por muitas razões recomendável para aqueles que queiram conhecer a região. Sua localização e sua beleza, a quietude de suas ruas e de seus becos, suas tascas e restaurantes, onde se serve uma excelente cozinha regional, fazem o encanto de qualquer turista de bom gosto.

Essa cidade amuralhada foi fundada por volta do início da era cristã, quando da ocupação da Península Ibérica pelos romanos. Alguns dizem que a cidade já existia antes mesmo desta época, mas é uma tese a ser comprovada. Depois de quase dois séculos de lutas, a Pax Romana propiciou finalmente as condições para que o Imperador Augusto lançasse a grande reforma administrativa da Ibéria. Foi nessa época que a urbanização da cidade se firmou e se construiram seus edifícios públicos e monumentos. É emocionante passear por suas ruas medievais e, de repente, cruzar com a imponente colunata do Templo Imperial Romano, chamado popularmente de Templo de Diana. Anda-se um pouco mais e tropeçamos com as Termas Romanas do Palácio Sertório. Bate uma fome – afinal, ninguém é de ferro! – e caminhamos mais alguns metros e nos regalamos com a boa mesa do Fialho, restaurante que é uma das glórias de Portugal. E pode descer o vinho…

Mais uma pequena caminhada após o almoço apreciando suas igrejas e museus, um café e um charuto na Praça do Giraldo, e volta-se ao hotel. Travessa da Tâmara, Becco dos Assucares (sic), Travessa do Bagulho, Rua do Imaginário, em vez do nome de algum comendador ou da mãe de algum político, essas são as denominações das ruas que cruzamos. Sente-se subitamente uma grande paz de espírito.

No dia seguinte, mais visitas às vinícolas ou, como eles denominam, às adegas. Caso se queira ficar por Évora, pode-se visitar a Fundação Eugénio de Almeida, com seu lendário Pêra Manca; em Igrejinha, ainda dentro da sub-região de Évora, a Tapada de Coelheiros pode oferecer, além de grandes vinhos, uma deliciosa pousada cercada de olivais e vinhedos, além de uma enorme tapada que faz a festa daqueles que amam a caça. Rodando um pouco mais, direção nordeste, em Estremoz, pode-se ir à Quinta do Carmo ou à adega de João Portugal Ramos. Bem perto dali, mas já em Borba, se encontra a Quinta do Zambujeiro, pequena e moderna vinícola do empresário suíço Emil Stricler, cujos vinhos premium ainda vão dar o que falar. Depois das degustações, é obrigatória a visita à cidade medieval de Estremoz e um almoço no Restaurante São Rosas, do simpático casal Margarida e Joaquim Cabaço.

A caminho do sul, na sub-região de Reguengos, temos, entre outras, a cooperativa vinícola Carmim e a esplêndida propriedade da Herdade do Esporão, onde se pode aproveitar para almoçar no restaurante da vinícola, comandada pela polêmica chef Julia Vinagre, deliciando-se com os pratos de sua cozinha inovadora e, segundo alguns, “herética”.

Não adianta procurar no mapa porque certamente vocês não vão encontrar a pequena povoação de Aldeias de Montoito. Lá que se encontra a adega Casa de Sabicos, de Joaquim Manoel Madeira e sua simpática esposa, que se dão ao luxo de morar a cerca de 200 metros da propriedade, em pleno “centro urbano”. Você pode estar num dia de sorte e ser convidado – como eu fui — para lá provar uma sopa de tomate com bacalhau e batatas ou uma lingüiça de porco alentejano. Tudo isso regado por um bom vinho, evidentemente.

Em suas modestas instalações em Vidigueira, Francisco Nunes Garcia e seus dois filhos podem brindá-lo com um ótimo vinho. Também em Vidigueira, numa herdade belíssima, a Cortes de Cima, o enólogo dinamarquês Hans Christian Jorgensen e sua esposa Carrie estão a postos para uma recepção muito amistosa regada a bons vinhos.

O tour ficaria incompleto sem uma ida até o Mouchão, em Portalegre, onde o onipresente enólogo Paulo Laureano elabora , com pisa em lagares de pedra, seu grande néctar.

AGUINALDO ZÁCKIA ALBERT

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