Degustadores Sem Fronteiras | Líbano: O Renascimento do vinho na terra dos cedros
54
post-template-default,single,single-post,postid-54,single-format-standard,ajax_updown_fade,page_not_loaded,

BLOG

Líbano: O Renascimento do vinho na terra dos cedros

16 jun 2016, Posted by degustadoresfronte in Notícias e Artigos, Uncategorized

A terra dos cedros é também a terra das vinhas. O Líbano de hoje foi a terra dos fenícios, um povo de origem semita que habitava as cidades de Tiro, Sidon e Biblos, e que iniciou a produção e – principalmente—a comercialização do vinho trinta séculos antes da era cristã. Nessas cidades-estado a disponibilidade de terra arável para grãos era pequena, o que determinou que que o vinho proveniente de seus vinhedos se constituisem numa eficiente moeda de troca possibilitando a compra dos produtos agrícolas de outras regiões para sua subsistência.

Assim uma das primeiras comunidades vitivinícolas da história acabou se desenvolvendo, impulsionada por sua formidável frota mercante que acabou por espalhar o vinho por todo o Mediterrâneo. A importância desse povo para a disseminação da cultura do vinho pelo mundo foi enorme. Egito, Cartago, Chipre, Grécia, a Itália prérromana, Sardegna e Península Ibérica conheceram o vinho e a arte de produzí-lo pelas mãos fenícias. Navegaram inclusive além do estreito de Gibraltar, chegando à França atlântica, à costa oeste da Inglaterra e, segundo estudos mais recente , às Américas.

A mais memorável menção bíblica sobre o vinho na região se encontra no Novo Testamento, quando se narra o milagre de Cristo, que transformou água em vinho nas “Bodas de Canaã”, que é , por si só, uma poderosa metáfora do que a cultura dessa preciosa bebida iria representar para o cristianismo e a civilização ocidental. Dois séculos mais tarde, os
romanos que ocuparam a região iriam construir em Baalbek, no vale do Bekaa, o grandioso Templo de Baco em homenagem ao deus do vinhos.Não por acaso o vale do Bekaa se constitui hoje na mais importante região produtora
de vinhos do Líbano. O centro arqueológico onde se situa o Templo de Baco ainda está lá, extraordinariamente bem preservado, sendo na verdade o conjunto arquitetônico romano mais bem preservado do mundo. A grandiosidade e beleza do templo emocionam o amante do vinho que o visite, com sua altas colunas, elegância de linhas e os entalhes em pedra com motivos ligados à vinha e ao vinho.

Situado ao norte do Líbano bem próximo à fronteira com a Síria, o vale do Bekaa responde por cerca de 80 % da produção de vinhos libanesa. A conquista dessa região por árabes muçulmanos e, depois, por turcos dessa mesma religião, praticamente eliminou a produção do vinho por cerca de 1 000 anos! A produção do vinho ficou reduzida às terras dos monges maronitas e cristãos ortodoxos para que tivessem o vinho para a celebração da missa. Apenas no século XX, após o declínio do Império Otomano, vamos assistir a um tímido ressurgimento da produção comercial na região. O Château Ksara, que pertencia a monges jesuítas, representa bem essa época heróica, tendo sido o precurssor dessa nova produção, seguida mais tarde, nos anos 1930, por outros como o Château Musar e o Château Kefraya. Mesmo assim, durante um bom tempo, a maior parte das uvas eram utilizadas não para o vinho, mas para a produção do Arak, um destilado de uvas muito apreciado no Líbano.

Num país em que hoje são minoria, os cristãos do Líbano tiveram de suplantar outros grandes obstáculos em sua trajetória. O consumo interno baixou dramaticamente durante a guerra do final dos anos 1970 e 1980 contra as forças muçulmanas e que praticamente devastou Beirute e outras cidades. A safra de 1976, por exemplo, não pode ser colhida devido à violência dos combates. Os anos subsequentes também não foram fáceis devido à crise econômica do pósguerra, mas hoje o vinho e seu mercado voltam a florescer nesse pequeno baluarte da civilização cristã cercado por populações hostis.

 

A INFLUÊNCIA FRANCESA

Com o final da Primeira Grande Guerra e a derrota das forças turcas, o Líbano tornou- se um protetorado francês a partir de 1920, e assim permaneceu até 1943. O francês é a segunda língua do Líbano e é falada pela maioria da população. A influência da cultura francesa e os laços que ligaram esses dois países se tornaram muito fortes. Esssa ligação foi sem dúvida muito imporante para o ressurgimento da cultura do vinho no país.

Pode-se perceber claramente a força da influência francesa na vitivinicultura da região a partir das uvas cultivadas: Cinsault, Carignan, Cabernet Sauvignon, Mourvèdre, Merlot, Grenache e Syrah, todas variedades tintas francesas. Produtores e enólogos franceses contribuiram muito para as mudanças, como foi o caso da família Barton, de Bordeaux, que nos anos 1950, levaram as técnicas de desengaçamento e maturação em barricas de carvalho ao Château Musar.

As uvas brancas plantadas, no entanto, são em sua maioria indígenas como a Obaideh e a Meroueh.As variedades estrangeiras Chardonnay, Viognier e Vermentino também são cultivadas.

 

LÍBANO EM NÚMEROS

Área plantada – 14 200 ha

Produção – 150 000 hl.

Consumo per capita – 3,1 litros/ano

Fonte – OIV – Organisation Internationale de la Vigne et du Vin – Relatório de
2010. Ano base 2007.

 

O VALE DO BEKAA E SEUS PRINCIPAIS PRODUTORES

Em nossa viagem ao Líbano pudemos visitar os três mais importantes produtores do país: Château Musar, Château Ksara e Château Kefraya.

Château Musar – seus vinhedos se situam no Bekaa mas sua sede, onde é feita a vinificação, fica mais distante, na cidade de Gazir. Chegamos lá logo cedo e fomos rcebidos por seu enólogo, Tarek Sakr, que nos falou longamente sobre os vinhos produzidos pelo domaine, que desde 2006 se dedica à produção de vinhos orgânicos, segundo ele os únicos
produzidos no país. Chega depois o sr. Gaston Hochar, diretor da empresa,filho do famoso Serge Hochar (eleito uma vez “Homem do Ano” pela revista Decanter), um rapaz na faixa dos quarenta anos, alto, elegante e bastante simpático. Pode-se sentir a influência européia na sua formação durante nossa conversa. Afinal foram mais de 15 anos de estadia e estudos na França, que se iniciaram de forma bastante curiosa. Ele havia ido para Paris a passeio, para passar 15 dias, mas acabou ficando por 15 anos, pois logo após sua chegada a guerra religiosa eclodira e não havia como retornar com segurança ao Líbano.

O Château Musar foi o pioneiro na produção de vinhos finos no Líbano e é a marca de maior prestígio no exterior. Lá degustamos dois de seus vinhos brancos, o Ch. Musar Jeune 2009, uma mescla de Viognier, Chardonnay e Vermentino, fresco e macio, sem passagem por carvalho, e o Ch. Musar Branco 2003 , com as variedades locais Obaideh e Merwatt, um interessante branco de guarda, com uvas fermentadas em barricas de carvalho e com estágio posterior de 9 meses também em barricas francesas. O vinho é marcado por notas florais e de amêndoas, bastante complexo e com leve oxidação característica do estilo do vinho, que agrada muito aos apreciadores de brancos do velho estilo.

Seguiram-se três tintos jovens sem passagem por carvalho, o Ch. Musar Jeune Rouge 2009 (100% Cinsault), o Ch. Musar Carignan 2009 e o Ch. Musar Cabernet Sauvignon 2009, frescos e equilibrados, todos com boa estrutura e corpo. Os vinhos envelhecidos, que caracterizam a casa, foram servidos depois, sendo duas safras do tradicional Ch. Musar, elaborado com uma mescla das uvas Cabernet Sauvignon e Cinsault. O da safra 1997 passou por em anos em barricas de carvalho francês e mais 4 anos por garrafa antes de chegar ao mercado. É especiado, rico e vigoroso e seu potencial de guarda é de 30 anos. Ch. Musar 1977 , ou seja, um vinho de 33 anos, bastante evoluído na cor e nos aromas, era ainda capaz de encantar o enófilo curioso. Os vinhos do Château Musar são trazidos para o Brasil pela Importadora Mistral.

Com sede e vinhedos no Vale do Bekaa encontramos o Château Ksara, que é, em termos históricos, a visita mais interessante entre os produtores. Trata-se do mais antigo e maior produtor do Líbano. Tudo começou em 1857, quando os monges jesuítas iniciram a produção de vinhos, num primeiro momento para o ofício da missa, mais tarde para sua comercialização. Foram os pioneiros nos tempos modernos na produção e comercialização do produto no Bekaa Em 1973 a propriedade foi vendida para empresários libaneses que procuram manter a tradição da empresa e exportam seus vinhos para cerca de 30 países (inclusive para o Brasil).

Fomos recebidos pela jovem e simpática enóloga Rania Chammas, diretora da empresa, fato impossível de se repetir em qualquer outro país árabe. A vinícola está muito bem instalada na antiga construção restaurada de pedra na cidade de Zahle. As construções em pedra, material abundante em todo o Líbano, é uma característica das construções da região. Ela nos mostra as antigas instalações e nos diz que os primeiros vinhos secos do país foram feitos ali e que a vinícola recebe 40 000 visitantes a cada ano. A estrutura de enoturismo é muito boa com um pequeno restaurante e uma boa loja de produtos.

Seguiu-se a degustação de seis vinhos da casa. O Ch. Ksara Blanc de Blancs 2009, feitocom as uvas Chardonnay, Sauv. Blanc e Semillon, leve e frutado, com 3 meses de estágio em carvalho. O Ch. Ksra Chardonnay 2008, mais encorpado e estruturado, com mais carvalho, corpo e potencial de guarda, muito bom. O Gris de Gris Rosé 2009, de Carigna e Grenache Gris, fresco e muito equilibrado, e outro rosé, o Sunset Rosé 2009, feito a partir da mescla das uvas Caabernet Franc e Syrah, mais robusto e com bastante fruta. O tinto Ch. Ksara Reserve du Couvent (Cab. Sauv., Syrah e Cab. Franc), com 6 meses de barricas, agradou bastante pela fineza dos taninos e excelente relação qualidade/preço. O Cuvée du Troisième Millenaire 2006 é o vinho de gama mais alta da maison. Passa por 22 meses nas barricas e tem um potencial de guarda de 20 anos. Cabernet Franc, Petit Verdot e Syrah entram na sua composição e é uma vinho que vale muito a pena ser bebido. A importação dos vinhos do Château Ksara é feita pela World Wine.

No coração do Vale do Bekaa vamos encontrar o mais moderno dos produtores do vale do Bekaa, o Château Kefraya. As instalações da sede e os jardins bem cuidados, divididos em zonas com nome de óperas e seus autores, impressionam bastante bela sua beleza. O restaurante, aberto aos visitantes e ao lado dos jardins é extremamente agradável e a comida servida, libanesa e internacional, é de ótima qualidade. Depois de enfrentar o calor da região, o visitante se sente reconfortado pelo frescor da sombra das árvores e o serviço gentil.

A empresa possui 300 ha de vinhedos próprios, todos bens próximos da sede e, com sua produção de 2 milhões de garrafas/ano, é um dos maiores produtores de vinhos finos do Líbano. O diretor técnico é o enólogo francês Fabrice Guilbertau, que nos recebe muito gentilmente e nos fala um pouco sobre o château e as excelentes condições do terroir da região, seu clima seco e ensolarado, que não conhece o assédio do mídio, por exemplo. Na visita aos vinhedos fomos acompanhados pelo jovem enólogo libanês Rani Azzi, quando pudemos desfrutar mais da bela paaisagem local e avaliar o cuidado dispensado aos vinhedos das uvas Cabernet Sauvignon, Syrah, Grenache, Carignan, Cinsault, Mourvèdre, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Viognier e Clairette.

Na degustação, conduzida por Guilbertau, pudemos confirmar o que prenunciava a visita aos vinhos: os vinhos, todos eles de assemblage , lembravam no estilo os bons vinhos do sul da França. Os primeiros vinhos foram degustados na cave, vinhos novos tirados diretamente das cubas de aço e das barricas, e causaram muito boa impressão. A longa série dos vinhos provados das garrafas (12 no total!) veio logo a seguir. Vale menção o Myst de Kefraya Rosé 2009, especiado, bem frutado e com uma surpreendente complexidade para um rosé. Realmente muito bom. Três safras do Château Kefraya, um corte de Cabernet Sauvignon, Syrah e Mourvèdre com de 12 a 16 meses de carvalho. O da safra 2005 se mostrou mais concentrado, complexo e, evidentemente, mais pronto do que os das safras 2006 e 2007, também muito bons. O Comte de M Le Grand Cru du Château Kefraya é, como se percebe, o vinho de topo de gama da casa. Muito bons e elegantes os dois degustados das colheitas de 2005 e 2006. Muito bons também o Vissi D´Arte 2008, um branco seco (50% Sauv. Blanc/ 50% Viognier), O Lacrima D´Oro 2004 Vendange Tardive e o fortificado Néctar de Kefraya. A Importadora Zahil é a responsável pela importação do Château Kefraya para o Brasil.

Com a melhoria das perspectivas, a viticultura começou a atrair a atenção de empresários de outras áreas. Ainda no Vale do Bekaa podemos citar os irmãos Saadé, especializados no ramo de imóveis e turismo, que investiram € 18 milhões na região e fundaram o o Château Marsyas. Mais ao sul , o brasileiro naturalizado francês e de família libanesa Carlos Ghosn, presidente-executivo internacional do grupo Nissan-Renault, e tido como um dos 25 mais brilhantes empresários do mundo, fundou sua moderna vinícola, a Ixsir, na cidade de Jezzine, e anda produzindo bons vinhos em estilo bem moderno.

A produção vinícola vem crescendo de forma consistente nos últimos anos, o mesmo acontecendo com a área plantada de vinhedos. Devido à exiguidade de seu território o país nunca será um grande produtor, mas a qualidade dos seus vinhos vem se aprimorando. Basta que haja paz para o Líbano se firme como um produtor de vinhos de qualidade.

Post a comment