Degustadores Sem Fronteiras | O ELIXIR DO AMOR, OU O VINHO NA ÓPERA
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O ELIXIR DO AMOR, OU O VINHO NA ÓPERA

16 jun 2000, Posted by degustadoresfronte in Notícias e Artigos

Creio que nunca se falou tanto na harmonização do rei das bebidas, que é o vinho, com a comida. Realizam-se cursos em que o noivo é carregado por toda a parte em busca de uma bela noiva para que se realize um casamento perfeito. Depois de muita caminhada, volta-se com ele para casa, e se percebe que a esposa ideal estava bem ali, em baixo de nossos narizes: a noiva é, quase invariavelmente, o prato típico da região do vinho.

Quando se pretende harmonizar o vinho com uma das artes também não é preciso caminhar muito. A primeira manifestação artística que nos ocorre é a ópera. A ópera, na verdade, não é apenas uma manifestação musical, mas uma obra teatral posta em música, em que ao canto (que tem o papel preponderante) se somam o acompanhamento orquestral, o libreto, o texto do canto, o cenário, etc.

Assim como os bons Chianti, a ópera nasceu em Firenze em fins do século XVI, e seus pais foram os humanistas italianos. As tentativas de imitar as tragédias gregas haviam fracassado, quando se descobriu que as peças de Sófocles e Eurípedes eram acompanhadas, nas representações, por música. Criou-se então esse novo gênero músico-teatral – a ópera ou melodramma, como também se dizia em italiano – pensando-se em ressuscitar a tragédia grega.

Vinho e ópera; ópera e vinho. As afinidades são enormes, e não podemos pensar num matrimônio tão feliz, tão veramente italiano. Rossini não devia estar totalmente convencido disso: julgando que o Barbeiro de Sevilha e a Cenerentola não fossem suficientes para garantir sua glória futura, além de desejar – como toda criatura – encontrar seu casamento perfeito, bom gourmet que era, inventou o delicioso filé a Rossini para não correr nenhum risco…

Molho meu pedaço de pão (italiano, é claro!) na taça de vinho da memória, e já começo a recordar as aulas de canto e os ensaios de meu pai, jovem tenor, no pequeno apartamento da maestrina Hermínia Russo, na Avenida Duque de Caxias. Anos 50, fazia muito frio, garoava. São Paulo era uma cidade muito mais civilizada e as pessoas pacatas podiam morar no “centrão” sem nenhum problema. Assisti muitas óperas na coxia do Teatro Municipal, meu pai atuando, e eu acompanhando o solfejo e o nervosismo dos cantores antes de entrarem em cena. Terminada a apresentação, íamos comer um belo bauru ou uma fritada no Ponto Chic do Largo do Payssandu, eu, garoto ainda, acompanhando com o olhar aqueles senhores muito elegantes em seus smokings traçando seus sanduíches ao lado do balcão de mármore branco. Mas isso é uma outra história…

Pois bem, senhores, foi pensando nesse casamento por excelência que a SOCIEDADE BRASILEIRA DOS AMIGOS DO VINHO – SP realizou no dia 27 de maio último uma noite lírica com o tema O VINHO NA ÓPERA. As noites líricas já são tradicionais na SBAV, sendo realizadas todos os anos. Nomes de destaque como Niza de Castro Tank, Aparecida Xavier, Luís Oréfice, Aguinaldo de Miranda Albert, entre outros, já marcaram sua presença em outras récitas. Nessa última, entretanto, à beleza das vozes somou-se a felicidade do tema, e o resultado foi um estrondoso sucesso. A organização do evento ficou a cargo de nosso confrade-tenor, Daniel Pinto, com assessoria da presidência. Convidou-se dessa vez o renomado crítico de ópera Sérgio Casoy, da Rádio Cultura, que elaborou o programa e garimpou as árias em que o vinho fosse evocado, além de fazer a apresentação de cada peça.

O recital teve início com uma romança de salão, gênero de composição vocal adequado aos saraus elegantes, de autoria do grande Giuseppe Verdi com versos de Andrea Maffei. Nessa peça, “MESCETEMI IL VINO !” (Sirvam-me o vinho!) (1845), exalta-se o vinho como o único dos prazeres verdadeiros e fiéis da vida, pois os amores terminam e a amizade é passageira. Cantaram as sopranos Isabel Batista e Vesna Bankovic, e se saíram muito bem. Ao piano, como em todas as outras peças, a experimentada professora Isabel Maresca.

Casoy nos conduz então dos aristocráticos salões milaneses à ensolarada Nápoles, para ouvirmos una vera canzonetta napoletana escrita em dialeto: GUAPPARIA (1914). Nos explica também que o termo se refere aos Guappi, integrantes da malavita napolitana, primos europeus do compadrito porteño e do malandro carioca. Nosso guapo é o tenor Ludo Farago, que se lamenta da falta de atenção de sua bem amada, a belíssima Margherita, que não se comove nem mesmo com a serenata – na qual não faltam guitarras e bandolins – com que é brindada pelo desiludido apaixonado. Na canção pede que a lua se vista de luto enquanto procura consolo num copo de vinho.
Já o trecho da ópera que se seguiu, LUCREZIA BORGIA (1833), de Gaetano Donizetti, se passa na cidade de Ferrara, no século XVI. Nela um grupo de jovens se diverte na festa da Princesa Negroni. As atrações da noite são os vários tipos de vinhos servidos: vinhos do Reno, de Chipre e da Madeira. Numa prova de que o conceito de se deixar o melhor vinho para o final não é recente, quando os camareiros trazem uma velha ânfora de vinho de Siracusa (Sicília, portanto, e tido como o melhor vinho), os convidados vibram, o jovem herói Maffio Orsini levanta sua taça e canta o belo brindisi “IL SEGRETO PER ESSERE FELICE” (O Segredo para ser feliz): levar a vida sem se preocupar com o futuro, bebendo vinho com os amigos. Uma curiosidade: sendo o personagem Maffio Orsini um adolescente, Donizetti atribuiu-lhe o registro de mezzo-soprano, vai daí a aria ter sido interpretada por Clarice Rodrigues.

A CAVALLERIA RUSTICANA (1890), de Pietro Mascagni, contém uma das mais célebres árias de evocação ao vinho. Trata-se de “VIVA IL VINO SPUMEGGIANTE!”, que o tenor Ludo Farago interpretou. A ação se passa numa pequena aldeia da Sicília, em pleno século XIX. Após a missa do domingo de Páscoa, o jovem Turriddu convida a todos para um copo de vinho na taverna de sua mãe, e canta a ária que faz um elogio ao vinho. Casoy esclarece que o termo spumeggiante (vinho muito jovem, rústico, artesanal, bebido diretamente dos barris), acertadamente empregado pelo libretista, não deve ser confundido com spumante.

O programa segue, e no próximo bloco tivemos duas adaptações operísticas de peças de Shakespeare. HAMLET (1868) foi retomado pelo francês Ambroise Thomas, e dele ouvimos a belíssima “O VIN DISSIPE LA TRISTESSE” (que eu ainda não conhecia), cantada pelo trágico herói durante a apresentação teatral que engendra, para observar, de forma dissimulada, a reação do tio usurpador, Cláudio. O título diz tudo, e mais uma vez o vinho surge como o grande bálsamo do homem. O barítono Alessandro Gismano interpretou brilhantemente a ária. Em MACBETH (1847), Verdi aproveita a cena de banquete criada pelo bardo inglês, na qual Lady Macbeth, já coroada rainha, recebe seus convidados da nobreza da Escócia em seu castelo, e canta “SI COLMI IL CALICE DI VINO ELETTO” (Encham-se as taças do vinho escolhido). A soprano Vesna Bancovic emprestou sua voz à pérfida Lady Macbeth.

Donizetti volta à cena e temos, afinal, aquela ópera em que o vinho não é apenas evocado, mais do que isso, é seu personagem principal. Afinal L’ELISIR D’AMORE (1832) nada mais é do que vinho de Bordeaux contido em pequenas garrafinhas e vendido pelo charlatão, Dr. Dulcamara, como se fora remédio. Evidentemente trata-se de uma ópera bufa de primeiríssima qualidade. O impagável Doutor, uma das mais notáveis figuras cômicas da história da ópera, viaja pelas aldeias italianas vendendo seu miraculoso remédio aos crédulos camponeses como sendo uma panacéia capaz de curar todos os males: epilepsia, asma, dor de dente, remoção de rugas, etc. Sempre alcança enorme sucesso, pois o sabor do remédio é excelente e provoca uma deliciosa sensação de alívio em quem o toma. Certamente o negócio do Dr. Dulcamara seria extremamente deficitário e inviável nos nossos dias, tendo em vista os preços astronômicos que os vinhos de Bordeaux alcançaram. Retomando o tema, eis o resumo da ópera: o jovem camponês Nemorino está loucamente apaixonado por Adina, que o ignora e pretende casar-se com o sargento Belcore. Desesperado, Nemorino pede ao nosso curandeiro itinerante que lhe venda a poção de amor que foi tomada pela rainha Isolda (conforme lera no romance Tristão e Isolda). Dulcamara, sem pestanejar, vende-lhe a garrafa de Bordeaux, dizendo ser a poção mágica do amor. Dulcamara (o baixo Júlio Pavanelo) e Neporino (o tenor Daniel Pinto) cantam então o divertidíssimo dueto “VOGLIO DIRE LO STUPENDO ELISIR”. Na mesma ópera mais duas árias báquicas, “Cantiamo, facciam brindisi” e “Per me l’amore e il vino”, acontecem, mas não foram cantadas. Neporino toma o vinho e se descontrai, torna-se mais alegre e chega a ignorar a presença de Adina por pura distração. A moça, diante da nova situação, passa a interessar-se pelo camponês, e acabam se casando. A felicidade torna-se completa quando morre um tio rico do noivo que lhe deixa toda a herança.

L’ELISIR D’AMORE talvez seja a metáfora mais justa e perfeita que se tenha feito sobre a relação do vinho com o homem. Nela o vinho é fonte de prazer, alegria e felicidade, sendo encarado como um verdadeiro remédio espiritual capaz de consolar o homem em meio às misérias do cotidiano.

Em seguida, um bloco dedicado aos vinhos fortificados. A primeira foi a “SÉGUIDILLE” da ópera CARMEN (1875), de Georges Bizet, que fala da Manzanilla, cantada pela mezzo-soprano Clarice Rodrigues, o que fez com que os aficionados do charuto imaginassem que também seria cantada a “HABANERA”. Não foi. Seguiu-se a “CANZONE DELL’AVENTURIERE: VERSATE IL PORTO…”, da ópera IL GUARANY (1870), do brasileiro Carlos Gomes, cantada pelo barítono Alessandro Gismano. E a Czarda de Johan Strauss “II KLANGE DER HEIMAT”, da ópera O MORCEGO (1874), a cargo de Isabel Batista, que interpreta uma condessa húngara (que na verdade é Rosalinda) num baile de máscaras, em Viena, evocando sua terra natal ao olhar o brilho e o fogo aprisionados num cálice de Tokay.

Talvez a mais famosa ária do repertório de tenor seja “LA DONNA È MOBILE”, do RIGOLETTO (1851), de Giuseppe Verdi. Nela, o libertino Duque de Mantova, disfarçado de capitão de cavalaria, pede um copo de vinho ao taverneiro e canta essa canção que fala da inconstância dos sentimentos femininos que vagam qual piuma al vento. Cantou-a muito bem o tenor Farago.

Daniel Pinto volta e canta a canzonetta napoletana plena de sentimento “O PAESE D’O SOLE”(1925), d’Annibale. Conta a história de um cantor que, após tentar vencer no exterior, volta à sua Nápoles natal. No jardim da casa materna, frente ao mar, pede que refresquem o vinho pois deseja embriagar-se de alegria. Como se vê, já naquele tempo se bebia o vinho na temperatura correta…
Respondendo aos aplausos e aos pedidos de bis, o grupo todo, para encerrar a noite com chave de ouro, cantou o brindisi da ópera LA TRAVIATA (1853), de Verdi – (“Libiamo, libiamo, ne’lieti calici”). Finda a cantoria, serviu-se uma bela pasta acompanhada de vinho tinto, que ninguém é de ferro…

AGUINALDO ZÁCKIA ALBERT

Publicado na edição # 9, de junho de 2000, da revista VINHO MAGAZINE

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