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BORDEAUX, HISTÓRIA E VINHOS DA MAIS PRESTIGIOSA REGIÃO PRODUTORA DO MUNDO

16 ago 2008, Posted by degustadoresfronte in Notícias e Artigos

As primeiras referências escritas ao vinho produzido em Bordeaux remontam ao século IV, quando o poeta galo-romano Ausone, que hoje empresta seu nome a um dos grandes vinhos de Saint-Émilion, escreveu poemas enaltecendo os vinhos da região – dentre os quais o que ele próprio produzia. Há fortes indícios de que por volta desta época a viticultura se espalhou e consolidou na Aquitânia sob domínio romano, depois de ter chegado ao Rhône.

Boa parte da reputação do vinho bordalês se estabeleceu durante o domínio inglês, a partir de 1152. Com o casamento de Eleonora da Aquitânia com Henrique II Plantageneta, rei dos ingleses e duque da Normandia, a região, assim como boa parte do oeste da França, ficou separada do restante do país por mais de três séculos, até o final da Guerra dos Cem Anos.

Mesmo com a reconquista da região pela França, em 1453, o comércio de vinho com a Inglaterra continuou, já que o “claret” – nome dado pelos britânicos ao vinho de Bordeaux por sua coloração rubi clara – havia conquistado reputação. Com o fim do domínio inglês, os comerciantes holandeses passaram a dominar a compra do vinho da região; foram os holandeses, aliás, os responsáveis pela drenagem dos pântanos que dominavam o Médoc, a mais importante região de Bordeaux atualmente, no século XVII. A mudança no gosto dos consumidores ingleses, que queriam vinhos mais concentrados, e a ocupação destas terras drenadas por vinhedos definiram a identidade atual do vinho tinto bordalês.

A segunda metade do século XIX foi bastante agitada na região: enquanto surtos de míldio e filoxera derrubavam a produtividade e a qualidade, a classificação de 1855 feita pelo Syndicat de Courtiers estabelecia os melhores vinhos de Medoc e Graves, estabelecendo denominações que duram até hoje praticamente inalteradas. A delimitação do departamento da Gironda e o estabelecimento da Appellation Controlée em Bordeaux só viriam depois, em 1911 e 1936.

Bordeaux é a região francesa que concentra a maior quantidade de grandes propriedades vinícolas e todos seus vinhos são AOC. Diferentemente da outra principal região, a Borgonha, aqui os vinhedos são extensos, muitos deles ao redor de châteaux, castelos que servem de sede para as grandes casas produtoras. Muitas vinícolas adotaram o nome château mesmo não possuindo um castelo, tão grande é a associação feita entre vinhos de Bordeaux e os castelos.
Bordeaux em números

Extensão : 10 000 km² (departamento de Gironde)
Área vitivinícola: 110 000 ha
Produção : 6 500 000 hl/ano

Localização, solo e clima

A região produtora dos vinhos de Bordeaux se localiza no departamento da Gironda, dentro da região da Aquitânia, sudoeste da França, cortada pelo paralelo 45° – portanto, em ótima latitude para o vinho. A produção vinícola se concentra às margens de dois rios principais, o Garonne e o Dordogne, que ao se encontrarem formam o estuário do Gironda, que dá nome ao departamento.

Os terrenos são, de modo geral, bastante planos e a composição do solo favorece a drenagem. Na margem esquerda do Garonne e do estuário do Gironda, predominam os solos arenosos misturados a cascalho (“graves”, em francês, que dá nome a uma região de Bordeaux cujo solo possui um grosso substrato de cascalho). No outro lado, ao longo da margem direita do Dordogne e do Gironda, a variedade é maior: argila, calcário, areia e cascalhos aparecem em diferentes trechos e muitas vezes se misturam. Já entre os rios Garonne e Dordogne, na área conhecida como Entre-deux-mers (“entre dois mares”), a composição do solo é basicamente argilo-calcária; este solo mais fértil acaba prejudicando o crescimento.

Devido à influência da corrente do Golfo, quente, e à proximidade do amplo estuário do Gironda, o clima é bastante ameno, temperado oceânico. Ao sul das áreas vinícolas, a floresta de Landes protege a região de ventos mais fortes vindos do Atlântico e ajuda a estabilizar a temperatura em épocas muito quentes. A pluviosidade é mediana, mas variável, podendo-se observar diferenças de distribuição dentro da própria região: o Médoc, por exemplo, costuma receber um maior volume de chuvas por ficar mais próximo ao oceano. A umidade é mais elevada nas regiões à beira dos rios próximas à floresta de Landes, como Sauternes: graças a isso, as uvas brancas são atacadas pelo fungo Botrytis cinérea, responsável pela desidratação das uvas que produzem o vinho doce mais valorizado do mundo.
As uvas

Mais de 80% da produção vinícola da região é tinta e é inevitável a associação do nome Bordeaux com vinhos estruturados e elegantes, marcados pela predominância da Cabernet Sauvignon e da Merlot. Dentre os brancos, porém, são produzidos alguns dos melhores vinhos doces do mundo, graças à pourriture noble que ataca a Sémillon e a Sauvignon Blanc em algumas áreas. Brancos secos muito bons também podem ser encontrados com as mesmas uvas.

O tinto de Bordeaux é famoso e, mais uma vez, se opõe ao da Borgonha por ser um vinho de corte, isto é, composto por mais de uma uva, e não um monovarietal. Cada uva desempenha seu papel na mistura, cujas proporções e protagonistas variam de acordo com a sub-região. A Cabernet Sauvignon, provavelmente a mais globalizada das uvas, dá vinhos tânicos e complexos e é a tinta predominante na margem esquerda, mais quente e, portanto, mais propícia a seu amadurecimento. No total, a Cabernet Sauvignon ocupa 25 000 ha em toda a região. A Merlot, um pouco mais macia, mas também com boa estrutura, é a mais plantada de Bordeaux, cobrindo aproximadamente 40 000 hectares, e os vinhos mais reputados em que é a cepa principal do corte são os produzidos na margem direita, de clima mais continental e ameno. A Cabernet Franc é a mais importante coadjuvante nos tintos bordaleses , embora em alguns de Saint-Émilion, notadamente o Château Cheval Blanc, seja a uva principal. Podem também aparecer no corte bordalês, em menor grau, as variedades Petit Verdot, Malbec e, muito raramente, a Carmenère.

A mesma coisa acontece dentre as brancas: raramente um Bordeaux branco, doce ou seco, será feito com apenas uma cepa. Despontam como principais componentes do bom branco bordalês a Sémillon e a Sauvignon Blanc. A primeira, opulenta, doce, untuosa e muito suscetível à pouriturre noble – podridão nobre, a desidratação da uva pelo fungo botrytis, aumentando imensamente a concentração de açúcar da uva – é sempre a protagonista nos vinhos doces, notadamente os Sauternes e Barsac. Já a Sauvignon Blanc, mais ácida, delgada e herbácea, suaviza a doçura nos vinhos botritizados e é o principal componente dos brancos secos de Graves, mais reputados, e de Entre-deux-mers. A Muscadelle entra no corte principalmente por seu aroma, bastante floral, e sua jovialidade, mas é cada vez menos plantada devido a sua fragilidade a doenças e está mais presente na região de Entre-deux-mers. É possível encontrar também as desinteressantes uvas Ugni Blanc e Colombard em menor escala.
Regiões e denominações de origem

A região vinícola de Bordeaux costuma ser dividida em três partes para melhor compreensão: margem esquerda, margem direita e Entre-deux-mers. As sub-regiões são distribuídas da seguinte forma:

Margem esquerda Bas-Médoc
Haut-Médoc
Pessac-Léognan
Graves
Sauternes e Barsac
Cérons 
Entre-deux-mersLoupiac
Saint-Croix-du-Mont
Saint-Foy-Bordeaux
Cadillac
Côtes de Bordeaux St Macaire
Premières Côtes de Bordeaux
Graves de Vayres 
Margem direitaSaint-Émilion
Pomerol
Lalande-de-Pomerol
Fronsac e Canon-Fronsac
Côtes de Blaye
Côtes de Castillon
Côtes de Francs
Côtes de Bourg 

Appellation genérica

Um vinho que recebe a Appellation Bordeaux Contrôlée (ou Bordeaux AC) pode ser produzido em qualquer parte da região, desde que use as uvas permitidas e tenha rendimento de, no máximo, 55 hl por hectare. Além disso, o produto final deve ter um teor alcoólico entre 10° e 12,5°. Caso o rendimento seja inferior a 50 hl/ha e o teor alcoólico superior a 10°, o vinho já pode ser enquadrado na classificação Bordeaux Supérieur. Os espumantes também se enquadram na categoria genérica, com o nome Crémant de Bordeaux. Os vinhos de appellation genérica correspondem a aproximadamente 45% do total produzido na região.
Appellation regional

Como vimos, a região de Bordeaux apresenta diversos tipos de solo. Outros fatores, como proximidade do mar e insolação também são fatores importantes para definir a personalidade do vinho. Assim, ao se restringir a área da qual podem ser colhidas uvas, a probabilidade de se obter um vinho com mais características do terroir aumenta.
Appellation comunal

Algumas das denominações regionais encerram classificações ainda mais específicas, de acordo com a comuna ou distrito de origem das uvas usadas. Logo, espera-se que um vinho de appellation comunal seja de alta qualidade – até porque o preço certamente será alto.

Na próxima edição abordaremos a Classificação dos Crus Classés das mais renomadas regiões de Bordeaux.

AGUINALDO ZÁCKIA ALBERT

Publicado na edição #28 / 2008 da revista ADEGA

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